🗓 Publicado em 31/08/2026
✍️ Por Pe. José Vidalvino
📘 Psicoterapeuta E Criador Do Método Da Cura Da Criança Interior

Introdução
Existem dores dentro de nós que nos conduzem de forma inconsciente e automática. Muitas vezes, acreditamos que estamos no controle de nossa vida, que todas as nossas escolhas são feitas de maneira consciente e que sabemos exatamente por que agimos de determinada forma. Mas, quando começamos a olhar mais profundamente para dentro de nós, percebemos que nem sempre é assim. Existem comportamentos, pensamentos, medos e reações que surgem quase automaticamente, como se algo dentro de nós apertasse um botão e assumisse o controle.
Infelizmente, sem perceber, podemos ser programados a agir de forma negativa. Não porque desejamos conscientemente viver dessa maneira, mas porque fomos construindo, ao longo da vida, uma forma de interpretar o mundo, as pessoas e a nós mesmos. Grande parte dessa construção começou ainda na infância. Foi nesse período que começamos a receber informações sobre quem éramos, sobre o nosso valor, sobre o que podíamos ou não fazer e sobre o que deveríamos esperar da vida.
Muitas dessas experiências se transformaram em feridas emocionais. Algumas foram causadas por grandes acontecimentos, mas outras nasceram de situações aparentemente pequenas, repetidas durante muito tempo. Uma palavra negativa, uma crítica constante, a falta de atenção, o sentimento de rejeição ou a sensação de não ser suficiente podem deixar marcas profundas. E, sem perceber, essas dores começam a construir nossa identidade e a influenciar a maneira como vivemos.
1 — A programação que começou na infância
Somos, de certa forma, como uma máquina que vai sendo programada ao longo da vida. Essa comparação não significa que não temos sentimentos ou liberdade para escolher, mas ajuda a entender como muitos comportamentos se tornam automáticos. A nossa programação começa a ser formada muito cedo. Na infância, absorvemos aquilo que vemos, ouvimos e sentimos. Ainda não temos maturidade suficiente para questionar muitas coisas e, por isso, acabamos aceitando determinadas experiências como verdades sobre nós mesmos e sobre o mundo.
Imagine uma criança que cresce ouvindo constantemente que não é capaz. Talvez, durante anos, ela escute críticas, comparações e palavras que diminuem sua confiança. Mesmo que ninguém diga diretamente que ela não tem valor, as experiências podem fazer com que ela comece a acreditar nisso. Quando essa criança se torna adulta, pode continuar carregando essa crença. Ela pode ter capacidade, inteligência e oportunidades, mas algo dentro dela continua dizendo: “Você não consegue”. E, muitas vezes, ela nem percebe de onde veio essa voz.
Essa é uma das formas pelas quais as dores podem construir nossa programação interna. Criamos crenças, comportamentos e mecanismos de defesa para sobreviver emocionalmente às experiências que vivemos. Aprendemos a nos proteger, a evitar determinadas situações e a reagir antes mesmo de pensar. O problema é que aquilo que um dia serviu como proteção pode continuar funcionando quando já não é mais necessário. Assim, seguimos vivendo como adultos, mas, em algumas situações, ainda reagimos a partir das feridas de uma criança que continua existindo dentro de nós.
2 — Quando a dor se transforma em identidade
Essas dores nem sempre desaparecem com o passar do tempo. Muitas vezes, elas se tornam tão presentes que começam a fazer parte da nossa identidade. Passamos a acreditar que somos aquilo que sentimos repetidamente. Se durante muito tempo nos sentimos incapazes, podemos começar a dizer: “Eu sou incapaz”. Se fomos constantemente rejeitados, podemos acreditar que ninguém realmente ficará ao nosso lado. Se aprendemos que precisamos agradar a todos para sermos aceitos, talvez passemos a viver tentando conquistar a aprovação das pessoas.
O problema é que, quando uma dor se mistura com a nossa identidade, fica mais difícil perceber que ela não define quem somos. Começamos a nos enxergar a partir das nossas feridas. Falamos sobre nós mesmos usando as palavras que, muitas vezes, nasceram das experiências dolorosas que tivemos. Dizemos que somos fracos, difíceis, inseguros, incapazes ou azarados. Repetimos essas afirmações tantas vezes que elas deixam de parecer pensamentos e passam a ser aceitas como verdades.
Por isso, vale a pena fazer algumas perguntas com sinceridade. Como você se vê hoje? O que você costuma dizer para si mesmo diante da vida que está levando? Quando algo dá errado, qual é a primeira coisa que você pensa sobre você? Você acredita que tem a vida que tem apenas por acaso ou será que, de alguma maneira, foi sendo conduzido silenciosamente para essa realidade? Essas perguntas não existem para gerar culpa, mas para despertar consciência. Afinal, é muito difícil mudar aquilo que não conseguimos enxergar.
3 — O piloto automático que conduz nossa vida
Quando não percebemos aquilo que acontece dentro de nós, acabamos entrando no piloto automático. Reagimos antes de refletir, repetimos comportamentos antigos e fazemos escolhas baseadas em medos que, muitas vezes, nem conseguimos explicar. É como se existisse uma programação interna funcionando silenciosamente. Algo acontece e imediatamente respondemos da maneira que aprendemos, mesmo que essa reação já não faça sentido para a vida que desejamos construir.
Isso pode acontecer em diferentes áreas da vida. Nos relacionamentos, podemos nos afastar das pessoas por medo de sermos rejeitados. No trabalho, podemos desistir antes mesmo de tentar porque, no fundo, acreditamos que não somos capazes. Podemos evitar oportunidades, esconder nossos sentimentos ou aceitar situações que nos fazem sofrer porque, de alguma forma, aprendemos que essa é a realidade que merecemos ou que somos capazes de viver. O mais complicado é que tudo isso pode parecer completamente normal, simplesmente porque estamos acostumados a funcionar dessa maneira.
Entramos em um movimento interno que nos trouxe até onde estamos e, depois de algum tempo, passamos a acreditar que isso é a nossa vida e que não existe outra possibilidade. Deixamos de questionar nossos comportamentos e começamos a aceitar tudo como parte da nossa personalidade. Dizemos: “Eu sou assim mesmo”. Mas será que somos realmente assim ou apenas aprendemos a sobreviver dessa maneira? Será que determinadas atitudes representam quem somos ou são apenas respostas criadas pelas dores que ainda carregamos?
Conclusão — Deixar de ser conduzido para começar a conduzir
Talvez uma das coisas mais importantes que podemos fazer seja começar a perceber aquilo que nos conduz. Isso exige coragem, porque nem sempre é fácil olhar para dentro. É mais confortável acreditar que tudo o que fazemos é simplesmente normal ou que a vida é assim mesmo. Mas, quando começamos a observar nossos pensamentos, emoções e comportamentos, podemos descobrir padrões que antes passavam completamente despercebidos.
Ser consciente não significa ter controle absoluto sobre tudo o que acontece em nossa vida. Não podemos controlar todas as situações, as pessoas ou os acontecimentos. Mas podemos começar a compreender melhor aquilo que acontece dentro de nós. Podemos observar nossas reações e perguntar por que determinada situação nos afeta tanto. Podemos perceber quando estamos agindo por medo, quando estamos repetindo um comportamento antigo e quando uma voz interior está apenas repetindo uma crença que foi construída há muitos anos.
Talvez esse seja o começo de uma grande mudança: entender que não precisamos continuar vivendo apenas a partir da programação criada pelas nossas dores. O passado pode ter influenciado quem somos hoje, mas não precisa continuar decidindo quem seremos amanhã. Quando começamos a reconhecer nossas feridas, questionar nossas crenças e perceber os comportamentos que funcionam no piloto automático, damos um passo importante. Deixamos, pouco a pouco, de ser apenas conduzidos silenciosamente pela vida e começamos a assumir, com mais consciência, a condução da nossa própria história.
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